Cultivar saúde vs. tratar doenças

Este texto não tem referências bibliográficas nem diretrizes. É só minha cabeça, depois de algumas conversas dos últimos dias que foram acumulando uma pergunta: por que a medicina moderna se especializou em tratar doenças depois que elas aparecem, em vez de construir saúde antes que elas se instaurem?

A resposta mais honesta é que o sistema foi desenhado assim. Para o médico, prescrever um anti-hipertensivo é mais rápido, mais previsível e mais bem remunerado do que acompanhar um paciente durante seis meses de mudança de hábito. Para o paciente, tomar um comprimido é infinitamente mais fácil do que perder peso, parar de fumar, começar a se mover e reduzir o álcool. O sistema recompensa a consulta, não o desfecho. E assim o ciclo se perpetua: o médico cumpre o protocolo, o paciente sai com a receita, a real causa dos problemas comumente não é exposta. 

Não estou dizendo que os médicos são os culpados. O problema é estrutural, e o paciente faz parte dele. Muitos, de fato, não querem mudar. Estão satisfeitos com a losartana e um retorno anual. Recebem a orientação de sempre (“o senhor precisa parar de fumar e ir à academia”) e já sabem o que responder: isso todo mundo sabe, doutor. E têm razão. O acesso à informação nunca foi tão amplo. O que falta não é conhecimento. É estrutura, acompanhamento e comprometimento dos dois lados.

É aí que entra o conceito de accountability, algo como prestação de contas mútua. O paciente sabe o que precisa fazer, mas não sabe como sustentar isso ao longo do tempo. O médico sabe o que o paciente deve fazer e como, mas o modelo atual não permite (e muito menos recompensa) que ele acompanhe essa jornada de verdade. O resultado é uma medicina que gerencia números em exame, mas não transforma trajetórias.

Os novos análogos de GLP-1 (semaglutida, tirzepatida) são um exemplo interessante desse paradoxo. Não mudaram o paradigma, mas expuseram sua fragilidade: como o resultado é rápido e visível, até o médico mais apressado e o paciente menos comprometido conseguem perder 10% do peso. O mérito não é do acompanhamento, é da magnitude do efeito. Isso funciona, até parar de funcionar.

Se o objetivo real é longevidade: vida com saúde, funcionalidade, autonomia e sem dependência de pilhas de medicamentos aos 70 anos, prescrever e aguardar não basta. É preciso orientar, monitorar e, sim, cobrar. Não no sentido autoritário da palavra, mas no sentido de responsabilidade compartilhada, entre médico e paciente. A produtividade no trabalho, o tempo de qualidade com quem importa, a capacidade de envelhecer com dignidade: tudo isso tem um preço, e esse preço se paga agora, em hábito e escolha, não depois, em doença e hospital.

Alguns já entenderam isso. São exatamente esses os pacientes que eu quero atender. Quando médicos e pacientes chegam a esse entendimento juntos, a medicina passa a fazer sentido de verdade.