Depois da enquete no Instagram, meus seguidores decidiram que era sim para eu mexer no vespeiro do consumo de álcool. O álcool é a droga, digamos, preferida da maioria das pessoas, e amplamente aceita na sociedade atual, diferentemente do cigarro ou de outras drogas recreativas.
Por muitos anos, acreditou-se que o consumo moderado de álcool, ou mesmo o consumo diário de vinho tinto, faria bem à saúde, especialmente do coração, e poderia até aumentar a expectativa de vida. Esses grandes estudos populacionais, no entanto, foram aos poucos desmascarados, e por bons motivos. O principal deles é estatístico: é muito difícil eliminar vieses de seleção. Vou explicar melhor.
Os estudos diziam que as pessoas que não bebem vivem menos do que as que bebem moderadamente. Tudo bem, mas precisamos considerar uma questão central: muitas pessoas que não bebem deixam de fazê-lo justamente porque já têm alguma doença que as impede. Será que vivem menos por não beber álcool, ou por causa da doença que as fez parar de beber? Esse é o tipo de viés que distorce uma conclusão inteira.
Há ainda outro ponto. O consumo moderado de álcool costuma estar associado a bom convívio social, e pessoas com mais acesso à informação tendem a ter uma relação mais equilibrada com a bebida, além de outros hábitos saudáveis no conjunto. Como separar o efeito do álcool em si do efeito de todo esse estilo de vida que o acompanha? Na prática, os estudos populacionais antigos não conseguiam fazer essa separação.
E há a famosa história do vinho tinto e do resveratrol. A princípio, dizia-se que o resveratrol do vinho fazia bem ao coração, melhorava o colesterol e, por consequência, trazia longevidade. Hoje sabemos que o resveratrol tem efeitos antioxidantes apenas moderados, e que a dose necessária para qualquer efeito relevante é muito maior do que a contida em uma taça de vinho. Para atingir essa dose bebendo vinho, a pessoa precisaria estar bêbada muito antes de chegar perto de qualquer benefício teórico.
Por outro lado, o álcool é sabidamente cardiotóxico e carcinogênico, e esses dados vêm de estudos bioquímicos e genéticos, muito menos suscetíveis a vieses. Estudos de randomização mendeliana, que usam variantes genéticas para estimar o efeito causal do álcool, confirmaram associação com hipertensão, fibrilação atrial, infarto do miocárdio e doença vascular. A Organização Mundial da Saúde e, mais recentemente, o Surgeon General dos Estados Unidos reforçaram a mesma conclusão: não existe nível seguro de consumo de álcool quando se considera o risco de câncer. Estima-se que o álcool responda por mais de 5% de todos os casos de câncer.
Um estudo publicado em 2024 no JAMA acompanhou mais de 135 mil pessoas acima de 60 anos e encontrou que até o consumo moderado se associou a maior taxa de mortalidade, com boa parte desse aumento concentrada em câncer e doença cardiovascular. O suposto efeito protetor do álcool sobre o coração, quando aparece, é pequeno, restrito a alguns desfechos específicos, e jamais compensa o risco oncológico que vem junto.
Há, claro, os efeitos sociais do consumo moderado: relacionamentos, alívio de estresse, o ritual de uma taça com quem se gosta. Isso é real e merece ser considerado, mas é uma conversa longa, que talvez renda outro texto.
Concluindo: não está ao meu alcance dizer a ninguém para parar de beber, e, via de regra, não é algo que eu imponha aos meus pacientes. Mas é imprescindível esclarecer aqueles que acham que fazem bem à saúde ao beber moderadamente que, em termos científicos e técnicos, não fazem bem algum. Muito pelo contrário.
Referências
World Health Organization. No level of alcohol consumption is safe for our health. WHO Europe, 2023.
Office of the U.S. Surgeon General. Alcohol and Cancer Risk Advisory. 2025.
Hassen HY, et al. Alcohol consumption and its association with cancer, cardiovascular, liver and brain diseases: a systematic review of Mendelian randomization studies. Front Epidemiol. 2024;4:1385064.
JAMA Network. Moderate alcohol intake and mortality in adults aged 60 and over (cohort > 135.000). JAMA. 2024.
American Association for Cancer Research. Cancer Progress Report. 2024.



